Eu apago a luz, encosto a porta e corro pra debaixo das cobertas. mesmo quando não está frio. pelo menos um lençol...eu tenho uma coisa com o escuro.
não é medo. mas eu tenho ideias de coisas paranormais e fico com mais medo das minhas ideias do que do escuro.
As vezes deixo a luz do corredor acesa pra quando minha mãe subir pro quarto. Mas ela já estava no quarto.
Foi tão dificil fechar o olho. Normalmente fecharia o olho rápido por conta do tal medo. Mas ficou aberto e não vinha nada pra fechar o olho e nem pra me trazer o sono. Não foi difícil o pensamento chegar até ela. Depois até eles.
Primeiro pensei no espectro do conto de Hamlet. Aparecesse para me orientar alguma coisa, com alguma fumaça, como no filme. Mas isso me dava medo demais e então eu imaginei o rosto dela sorrindo. De repente não foi muito difícil escutar a voz dela e a sua risada. eu temi por um dia esquecer dessa voz. Lembrei das mãos dela, lembrei dela comendo doces (era o que mais gostava nessa vida!), lembrei do óculos e as blusas que sempre pareciam ser de algum tecido como lã, malha ou tricô.
Lembrei não. Passava na minha cabeça como lembranças, como um filme. Flashs.
porque eu senti a mão dela nos meus cachos de quando eu tinha dois anos. eu não lembro disso mas eu senti. As mãos dela eram sempre evidentes no pensamento.
As vezes penso no lugar onde ela está fisicamente. É um lugar alto, onde eu senti o céu muito próximo. Não foi enterrada, foi colocada dentro de uma espécie de cubículo só que mais comprido, retangular. Nesse dia choveu. Pingos fortes me acertaram e eu disse que eram lágrimas de Deus.
Eu já estava chorando, chorando muito.
a ideia de que a vida vai levar todas as pessoas embora é complicada.
Logo pensei nele. Escutei a voz dele.
lembrei quando passávamos no seu trabalho, lá num posto de abastacimento de viaturas da polícia. Um DP perto do center norte. Fazia plantão.
Ele sempre me oferecia guaraná.
oferecia confete, às vezes. eu aceitava.
Pude ver a sua estatura. Era menor do que eu. eu via seu sorriso. ele não sorria sempre, era alguma coisa nos dentes que o fazia mais ou menos "ranger" dando a impressão que estava sorrindo. Mas era bonito ver o sorriso (ou imaginar que era um!).
me senti ruim por demorar um pouco mais de um ano pra esse sentimento vir à tona. antes eu chorei pelo sofrimento do meu pai e por vê-lo partir...agora a dor da sua ausência realmente me tomava.
Chorava muito, por dentro, por fora, com os olhos (que se mantinham abertos), com a alma, o corpo todo, físico e metafísico.
não dava pra parar.
e o natal? e o tutu-de-feijão do natal? eu nunca comia no almoço, só requentado nos outros dias, porque desde 2000 eu almoço o dia 25 com meu pai.
eu via meu vô chorando no dia que ela foi. eu imaginava a área da casa do interior, Três Barras, seria triste e desolada, quando o sol batia forte e fazia silêncio. Da pra pedir pra fazer doce-de-leite pra gente comer com queijo? Não.
Eu devia ter ido mesmo no hospital ver os últimos dias dele? Eu não fui, até hoje não sei se devo me culpar por isso...
a vontade de abraça-los é tão absurda.
Dói.
E meus olhos ainda não conseguem se fechar e nem parar de chorar, a pupila se acostuma com o escuro e não é tão dificil de enxergar.
Por fim, eu falei pra Deus.
"se pudessemos pedir para adiar a ida de todo mundo, pediríamos e adiaríamos pra sempre."
e dormi.
(não usei a palavra nenhuma vez no meio
mas
acho que da pra ficar bem claro que no meio disso, ou melhor, em tudo isso existe AMOR).
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
sábado, 5 de dezembro de 2009
Além
A vida é muito mais do que aprendizado. Do que estar dentro de limites. Do que ficar aprisionado num cubículo. Talvez seja realmente importante dar a última palavra importante em momentos importantes. Talvez eu deveria mesmo ter ousado. Eu preciso mesmo ouvir que tudo que nós precisamos é amor e nós precisamos lembra-los, senão o tiro do fuzil sai muito mais fácil do que um a, um m, um o e um r.
É isso mesmo que faz as pessoas tão amargas. Quando o sangue nas veias só correm por necessidade de estar estaticamente vivo e nada mais além de vivo, apenas vivendo. O coração só pulsa porque é a função dele e não por qualquer outra emoção condicionada ao ser.
Já dizia Drummond:
"Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor."
O que é uma pequena flor em tempos de guerra? O que é amor em meios de jogos de orgulho? Nós sabemos que a flor está ali mas é preciso nota-la. Nós sabemos que o amor está ali mas é preciso demonstra-lo.
Os meus olhos estão fechados mas uma vez você disse que consegue ver as coisas mesmo assim. Olha. Eu deixo. Eu aceito. Eu almejo.
Eu amo.
É isso mesmo que faz as pessoas tão amargas. Quando o sangue nas veias só correm por necessidade de estar estaticamente vivo e nada mais além de vivo, apenas vivendo. O coração só pulsa porque é a função dele e não por qualquer outra emoção condicionada ao ser.
Já dizia Drummond:
"Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor."
O que é uma pequena flor em tempos de guerra? O que é amor em meios de jogos de orgulho? Nós sabemos que a flor está ali mas é preciso nota-la. Nós sabemos que o amor está ali mas é preciso demonstra-lo.
Os meus olhos estão fechados mas uma vez você disse que consegue ver as coisas mesmo assim. Olha. Eu deixo. Eu aceito. Eu almejo.
Eu amo.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Um número
10, 20, 43, 55, 61.
Números.
E eu nunca gostei deles mesmo. Nunca gostei de medidas, cálculos, classificações.
Eu vivo bem sem.
De repente, um número define toda a sua trajetória. De repente, esse número te da vontade de contar quandos dias você leu tudo aquilo, quantas horas você tentou fazer aquelas contas, quantos fins de semana você disse "não" pra vida, quantos momentos você perdeu.
As pessoas que te abandonaram porque não te entenderam, as pessoas que ficaram, mas doídas porque não queriam te ver assim e as pessoas que foram embora e você perdeu a chance de vê-las cinco, seis vezes. Uma certa quantidade que eu poderia ter visto...
Orgulho todo foi embora.
A pressão interna, a voz interior, as preces à noite, as folhas na parede...
Os desgraçados que fizeram muito menos do que você.
A vida socio-econômica-emocional perfeita. A paz dentro de casa, nenhuma preocupação, apenas faça de tudo para conseguir o seu número...
Não foi como funcionou aqui dentro.
Funcionaram choros, desistências, lutas, forças ligeiramente aplicadas, a fé que acendia numa chama envergonhada. Pra um número.
Um número que talvez se traduza para novecentos.
Com algum desconto, talvez.
.
Números.
E eu nunca gostei deles mesmo. Nunca gostei de medidas, cálculos, classificações.
Eu vivo bem sem.
De repente, um número define toda a sua trajetória. De repente, esse número te da vontade de contar quandos dias você leu tudo aquilo, quantas horas você tentou fazer aquelas contas, quantos fins de semana você disse "não" pra vida, quantos momentos você perdeu.
As pessoas que te abandonaram porque não te entenderam, as pessoas que ficaram, mas doídas porque não queriam te ver assim e as pessoas que foram embora e você perdeu a chance de vê-las cinco, seis vezes. Uma certa quantidade que eu poderia ter visto...
Orgulho todo foi embora.
A pressão interna, a voz interior, as preces à noite, as folhas na parede...
Os desgraçados que fizeram muito menos do que você.
A vida socio-econômica-emocional perfeita. A paz dentro de casa, nenhuma preocupação, apenas faça de tudo para conseguir o seu número...
Não foi como funcionou aqui dentro.
Funcionaram choros, desistências, lutas, forças ligeiramente aplicadas, a fé que acendia numa chama envergonhada. Pra um número.
Um número que talvez se traduza para novecentos.
Com algum desconto, talvez.
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terça-feira, 17 de novembro de 2009
in memorian
Fechou os olhos, fechou a vida, cerrou os olhos de quem viu.
Cerrou e chorou. Tampou com as mãos, implorou pela volta.
Sem avisar, sem dizer nada. Fechou.
Fechou a tampa de onde agora era apenas o corpo sem vida. Era apenas o corpo, a representação.
A vida se fechou.
Fechou.
Fechou o céu.
As nuvens avançaram.
O céu se fez testemunha.
Deus chorou.
(em memória da Avó Catarina)
Cerrou e chorou. Tampou com as mãos, implorou pela volta.
Sem avisar, sem dizer nada. Fechou.
Fechou a tampa de onde agora era apenas o corpo sem vida. Era apenas o corpo, a representação.
A vida se fechou.
Fechou.
Fechou o céu.
As nuvens avançaram.
O céu se fez testemunha.
Deus chorou.
(em memória da Avó Catarina)
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Por não ter o que dizer
Poucas coisas em que segurar
De costas não se importar
O desconforto que os faz tão mal
Não há prestígio que passe do chão
PRAZER EM SER DIFERENTE DE VOCÊ!
De costas não se importar
O desconforto que os faz tão mal
Não há prestígio que passe do chão
PRAZER EM SER DIFERENTE DE VOCÊ!
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