sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

outras manhãs
se levantaram
doloridas
sem que a cabeça quisesse pensar
comida que não desce
sempre sai um choro
um choro estúpido com torrada na boca
seco
lágrimas limpadas
o reflexo no espelho
que não serve pra refletir mais nada.
e o desejo que tudo conspire
para dar errado ou certo
mas que a cabeça
não esteja
vazia.
vazia a cabeça
tudo vem
mais de 700 dias
ou um único só
e toda água do olho
cai...
ficar mais um pouco
e abraçar
ninguém.
o vento
eu mesma.
liberdade
e
tempo livre
de mentira
se na mente
ninguém é
livre.
mentiras
desgosto
são manhãs
e a noite
piora
cai o silêncio
e o pensamento
que se dispersa
roda no ar
crava os olhos
e tudo foi embora.
eu,
ele
tudo
!
o sono
profundo
que nunca quer acordar
pra não ver a manhã
vazia
de tudo
onde
nada
NADA
ficou
no lugar.
perdida
nua
sozinha
apenas com um nome



...

domingo, 30 de janeiro de 2011

esse texto existe na memória de palavras soltas da cabeça da autora e nunca existiu, não insista. se insistir, não acredito nego a existência jurando

era uma manhã
como todas as outras
só que era quente
tinha cheiro de cigarro
café e pão que não desciam
e se faziam necessários
sem piscar
a luz
entrava muito forte
na grande sala
e depois
entrava nos olhos
a luz
e a sala
não havia fôlego
só uma ar disperso
com nicotina
um estômago ruim
tomando café
ali, ali e ali
aqui!
paralelo
transversal
olhei o branco que é a mistura das cores
nada resolveu
no ar
a nicotina
o cheiro
que se dissipava
a cabeça não falava
só o estômago
efeitos
físicos
pousei
foi
voou
acabou
indo
subindo
DESCENDO
DESCENDO DA FORMA MAIS FORTE POSSÍVEL
não cabe
estranhezas
longe
daqui
aqui
mesmo
usou
do
discurso
.
com
o seu dito
do não dito
interdisse
anestesia
fome que não come
sem seu
sem sua
sem meu
sem sentido
o ar tem cheiro de shampoo
e de pasta de dente
queda livre!
nããão
queda forçada
só
risos
pra mais
tarde.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

você

não entende.


Nem eu.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Wagner

Não lembro do rosto, mas ainda vejo por inteiro o muleque que vinha no portão de casa "minha mãe tá aí?" Tinha jeito de bom rapaz, ainda que fosse muito menino pra ser um, era ingênuo e bom, bom rapaz. Filho de faxineira e mecânico, nunca deu essa desculpa pra se estrepar na vida. Aliás, a mãe trabalhava o dia todo e o menino limpava tudo, do banheiro a louça da cozinha, um bom rapaz. Uma vez o pai apanhou de policiais, por nada, ou por ser preto, o que não quer dizer nada, é um ser humano como a gente e todo mundo, mas o PM não quis saber e chutou a barriga do pai de Wagner.

São as coisas...eu não falei que Wagner era moreno, eu não falei da aparência porque não importa, mas eu também não me lembro.

O pai e a mãe de Wagner tiveram problemas. Depois que ele teve duas irmãs, eles tiveram desavenças. O pai era bom homem, simpático e gentil, mas fiquei sabendo que ele já levantou a mão pra mãe do Wagner. Levantou e abaixou. Saiu de casa, mas Wagner, apesar da preguiça de trabalhar, não se abalou. Wagner tinha ingenuidade, não era malandro.
A mãe dele fez curso de enfermagem, depois de anos faxinando a casa alheia, hoje é enfermeira. A mãe bonita e determinada, deixou tristes e orgulhosas as donas da casa que tinham a casa limpada. Era uma boa mulher! mas que brilhe bonito na enfermagem.

O primo de Wagner metido com coisa ruim foi morar com ele. Foi assaltar o mercadinho e Wagner estava junto, de gaiato no navio. O primo fugiu e Wagner, na ingenuidade, assinou como réu confesso. Foi pra cadeia. Cumpriu um ano, conseguiu acordo e estava dois meses pra sair!

Dois meses!

Ligaram de lá e vi a tia do Wagner chorando. Ele se suicidou na cadeia.
A mãe do Wagner disse que o corpo não tinha expressão de suicídio. Tinha sorriso que a alma deixou.

No corpo que eu não lembro do rosto, mas era do Wagner.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Isso é uma carta de amor para B

Escrevi tanto aqui.
Apaguei, salvei no bloco de notas. Porque não faz sentido fazer o drama aqui e me punir mais tarde da mesma forma.





Mas que fiquem salvas as palavras.







me mate só por hoje e me acorde quando puder me beijar de verdade.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

.

"[...]porque o rato existe tanto quanto eu, e talvez nem eu nem o rato sejamos para ser vistos por nós mesmos, a distância nos iguala. talvez eu tenha que aceitar antes de mais nada esta minha natureza que quer a morte de um rato. talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente. talvez eu não possa olhar o rato enquanto não olhar sem lividez esta minha alma que é apenas contida. talvez eu tenha que chamar de "mundo" esse meu modo de ser um pouco de tudo. como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza? enquanto eu imaginar que "deus" é bom só porque eu sou ruim, não estarei amando a nada: será apenas o modo de me acusar. eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário, e ao meu contrário quero chamar de deus. eu, que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu. porque enquanto eu amar a um deus só porque não me quero, serei um dado marcado, e o jogo de minha vida maior não se fará. enquanto eu inventar deus, ele não existe."




Clarice Lispector pelos dígitos de Bruno Ferreira.
fechando a noite.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

ode a ausência do tempo

Me dê meus tempos de criança e adolescência, qualquer tempo onde o tempo sobrava e dançávamos sobre ele.
Onde eu não precisasse correr e os passos lentos de observação me guiavam. Aonde eu não me irritava quando queimava tempos dentro do transporte público. Horários que me permitiam tomar café-da-tarde na frente da televisão e depois fazer uma lição de português da escola.

Eu choro muito doído por esse tempo. Tento odiar o tempo mas o que me consome não é o próprio, mas a ausência dele. Choro me sentindo culpada de gastar o tempo chorando. Vejo que crescemos e trabalhamos e pagamos, pagamos pelo tempo consumido, para sobreviver e no fim do mês vimos tarefas, dinheiro mas não vimos o mar, não vimos uma pomba lutando por pão, não ouvimos um velhinho contar uma história (de quando se tinha tempo).
Ignoramos, vivendo para consumir o tempo, ignorando o homem que dorme na rua, ignorando o deputado que te rouba, ignorando os juros, porque não temos tempo, não temos tempo de se preocupar com os outros, com as injustiças, com o caos.
Existimos.
Não comemos aquele bolo de chocolate inteiro porque não podemos engordar, porque não temos tempo para fazer exercícios, para andar de bicicleta, quiçá ir no cubículo do banheiro e bulimizar.
Não vemos mais as vacas, as galinhas, fica mais fácil mata-las, congela-las e fazer uma comida rápida, porque não temos mais tempo de aquecer um macarrão, de temperar uma salada.

Choro pela ausência do tempo que me tira a vida, me tira a respiração. Ausência do tempo que nos impede de amar, nos impede de nos relacionar, de querer, almejar e depois tocar;
nos impede os orgasmos múltiplos, nos impede de suar um fervor de paixão, nos impede...

Me dê lentidão.

"Temos nosso próprio tempo"
não tenho, não me pertence e eu não o domino. preciso comer, preciso dormir, preciso ascender na vida, tenho que abrir mão do tempo...

"somos tão jovens"
um jovem que precisa correr, precisa falar, aprender, ser culto, bonito, me dê um creme para o rosto, me deixe bonito, rápido, comendo o tempo porque o resto engorda.


Perdendo tempo.