A dor é uma úlcera, o descontrole um câncer. A dor de ter se tornado alguém que leva as pessoas ao nojo. A dor de perceber que faz mal aos outros. A dor de ver que tudo que se tentou ser, aconteceu ao contrário.
Há desconfiança nas pessoas que tem facilidade de machucar. O seu imprevisível é totalmente previsível para eles. Todos esperam a pior coisa de você.
A cura está perdida. Só resta clamar a Deus. Só resta chorar até que a dor amenize. Só resta fazer força para as coisas não repetirem. Sempre repetem...ela está doente. E quando não se repete, eles acham que está se repetindo. Porque ela está doente.
Descontrolada.
Bem descontrolada.
Medo.
Aflição.
Eles não acreditam.
terça-feira, 30 de março de 2010
terça-feira, 23 de março de 2010
pequeníssima utopia
- É o pai! Já chegou na USP? Tá trânsito? Vai chegar atrasada, né? Que horas é sua primeira aula? É do quê? Vai virar petista assim, hem! Como tá sua irmã? Ah, tô com uma sinuzite...É. Tá bom. Liga pro pai, viu? Tchau.
sábado, 20 de março de 2010
terça-feira, 9 de março de 2010
quinta-feira, 4 de março de 2010
metáfora
Um dia desconheci o mundo, era a época em que eu estava dentro do casulo. Ou da bolha. A bolha que eu interagia com quem estava dentro e tudo fora era muito embaçado, torpe e paranóico.
Outro dia eu quis agarrar o mundo com as mãos, com os braços, com as pernas, os pés e também quis abocanha-lo como se eu pudesse ingerir tudo que acontecesse, absorver tudo, acreditar em tudo, como em um rito antropofágico - onde uma guerreira, eu, comeria todos para absorver seu espírito, seus potenciais.
Acho que absorvi, absorvi tanto que fiquei fraca. Comi, comi, comi e fiquei com dor de estômago. Não tinha nada, não ingeri nada, era tudo tão vazio, fraco. Quando tinha algo, eu vomitava. Fiz greve. Mas comi em pequenas doses, as vezes eu só cheirava mas não comia. Muitas coisas ficaram só no nariz.
Mais outro dia eu nem estava cheirando, nem comendo, nem pegando, estava olhando e, de repente, o olhar penetrou a alma sem que eu sequer tocasse direito. Não foi invasivo, foi delicioso...
Então o mundo ficou parcial. Meio a meio.
Hoje em dia eu o pego na ponta dos dedos, cuidadosa como se pegasse em um cristal. Não que tudo seja digno de cuidados mas antes o cuidado e depois as atitudes que devem ser tomadas. As vezes eu aperto demais os dedos e o cristal se rompe, quebra bem na minha mão, espatifa em estilhaços e, muitas vezes, penetra minha pele fazendo sangrar. No entanto, nem sempre é de propósito o aperto forte, é tão sem sentido, quando vejo já está tudo ferido.
Quem sabe amanhã eu não aprenda a colocar na palma da mão, observar cautelosa e então viver.
É. Quem sabe...
Outro dia eu quis agarrar o mundo com as mãos, com os braços, com as pernas, os pés e também quis abocanha-lo como se eu pudesse ingerir tudo que acontecesse, absorver tudo, acreditar em tudo, como em um rito antropofágico - onde uma guerreira, eu, comeria todos para absorver seu espírito, seus potenciais.
Acho que absorvi, absorvi tanto que fiquei fraca. Comi, comi, comi e fiquei com dor de estômago. Não tinha nada, não ingeri nada, era tudo tão vazio, fraco. Quando tinha algo, eu vomitava. Fiz greve. Mas comi em pequenas doses, as vezes eu só cheirava mas não comia. Muitas coisas ficaram só no nariz.
Mais outro dia eu nem estava cheirando, nem comendo, nem pegando, estava olhando e, de repente, o olhar penetrou a alma sem que eu sequer tocasse direito. Não foi invasivo, foi delicioso...
Então o mundo ficou parcial. Meio a meio.
Hoje em dia eu o pego na ponta dos dedos, cuidadosa como se pegasse em um cristal. Não que tudo seja digno de cuidados mas antes o cuidado e depois as atitudes que devem ser tomadas. As vezes eu aperto demais os dedos e o cristal se rompe, quebra bem na minha mão, espatifa em estilhaços e, muitas vezes, penetra minha pele fazendo sangrar. No entanto, nem sempre é de propósito o aperto forte, é tão sem sentido, quando vejo já está tudo ferido.
Quem sabe amanhã eu não aprenda a colocar na palma da mão, observar cautelosa e então viver.
É. Quem sabe...
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Língua pode ser definida um código formado por palavras e leis combinatórias por meio do qual as pessoas se comunicam e interagem.
Dominar o código é importante, mas não devemos nos esquecer que o sentido do que se diz ou escreve será definido pelo outro, nosso interlocutor/leitor, que não é uma figura passiva, que está ali apenas esperando o que temos a dizer.
Ele tem seus próprios valores, pensamentos, etc. e, portanto, compreenderá o que dissermos de acordo com seus critérios.
Dominar o código é importante, mas não devemos nos esquecer que o sentido do que se diz ou escreve será definido pelo outro, nosso interlocutor/leitor, que não é uma figura passiva, que está ali apenas esperando o que temos a dizer.
Ele tem seus próprios valores, pensamentos, etc. e, portanto, compreenderá o que dissermos de acordo com seus critérios.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Fechando fachada
Olhou para os anéis prateados na barraquinha do metrô e os achou feios. Pareciam ser de latão, deviam pintar o dedo de verde com o tempo e, sei lá, o que iam pensar dela? Melhor procurar em outro lugar. Foi a loja de bijouterias do shopping e lá encontrou várias opções de anéis prateados. Escolheu um bem simples, que tivesse pedrinha, porque essa era a identificação da mulher (como se já não fosse óbvio, tratando-se da heterossexualidade). Não era uma joia mas dava pra enganar, pelo menos por um tempo. Colocou sua calça vermelha, a camiseta branca e o anel prateado no dedo específico da mão direita. Foi para a faculdade.
Sua fachada estava pronta. Ela é comprometida, veja no dedo. Vai entrar na faculdade com mais respeito. Aliás, que outro jeito ela poderia fazer pra disfarçar seu jeito desengonçado? Derrubava coisas no chão, trombava facilmente, gaguejava e...bom, pelo menos ela tinha um "namorado" e ninguém poderia julga-la de nada. Não diria nada, iria esperar alguém perguntar e inventaria uma história de amor, uma data e...melhor não, ninguém quer saber tantos detalhes. Diria apenas "sim, eu namoro". Dependendo do nível de amizade, inventaria uma história, contaria intimidade mas...ué, se criasse uma intimidade, não poderia manter essa mentirinha e ah! quem garante que teria uma amizade? Mas...são quatro anos de curso, impossível. Já estava sentada na sala, com o anel no dedo, não tinha como fugir. Ela daria um jeito.
No primeiro dia, foi só festa. Levaram os alunos para os bares e, de repente, ela se deparou com muita gente bebendo, se divertindo, tropeçando, até dançando! Ela ria, desnorteada e desengonçada, o quê foi mesmo que deram pra ela beber..."minha mãe vai me matar...". Era um barulho, era incessante, ela tentava se concentrar e olhava para seu dedo onde a "aliança" reluzia. Ria muito, ria muito olhando para o brilho do anel, quando um cara, bêbado cambaleando, trombou com ela e disse "gostei da sua calça!". Ela olhou para sua calça, sua calça vermelha...levantou a cabeça sorrindo e enxergou o rapaz, que usava calça vermelha e camiseta regata preta. Achou engraçado, riu mas ainda estava concentrada na necessidade daquele anel prateado. Olhou de novo para o cara que sumia na multidão e viu a tatuagem no seu braço "like a rolling stones".
Ficaria com o anel até alguém perguntar. Todo mundo usa uma fachada, todo mundo finge alguma coisa, todo mundo cheira pó e diz gostar de açúcar. Ela andaria desengonçada com um anel brilhante no dedo, diria que era desengoçada porque vivia bêbada. Teria uma nova versão, a partir dali.
Andou na rua cantarolando "she's only 18, don't like the rolling stones..."
(isso é FICÇÃO)
Sua fachada estava pronta. Ela é comprometida, veja no dedo. Vai entrar na faculdade com mais respeito. Aliás, que outro jeito ela poderia fazer pra disfarçar seu jeito desengonçado? Derrubava coisas no chão, trombava facilmente, gaguejava e...bom, pelo menos ela tinha um "namorado" e ninguém poderia julga-la de nada. Não diria nada, iria esperar alguém perguntar e inventaria uma história de amor, uma data e...melhor não, ninguém quer saber tantos detalhes. Diria apenas "sim, eu namoro". Dependendo do nível de amizade, inventaria uma história, contaria intimidade mas...ué, se criasse uma intimidade, não poderia manter essa mentirinha e ah! quem garante que teria uma amizade? Mas...são quatro anos de curso, impossível. Já estava sentada na sala, com o anel no dedo, não tinha como fugir. Ela daria um jeito.
No primeiro dia, foi só festa. Levaram os alunos para os bares e, de repente, ela se deparou com muita gente bebendo, se divertindo, tropeçando, até dançando! Ela ria, desnorteada e desengonçada, o quê foi mesmo que deram pra ela beber..."minha mãe vai me matar...". Era um barulho, era incessante, ela tentava se concentrar e olhava para seu dedo onde a "aliança" reluzia. Ria muito, ria muito olhando para o brilho do anel, quando um cara, bêbado cambaleando, trombou com ela e disse "gostei da sua calça!". Ela olhou para sua calça, sua calça vermelha...levantou a cabeça sorrindo e enxergou o rapaz, que usava calça vermelha e camiseta regata preta. Achou engraçado, riu mas ainda estava concentrada na necessidade daquele anel prateado. Olhou de novo para o cara que sumia na multidão e viu a tatuagem no seu braço "like a rolling stones".
Ficaria com o anel até alguém perguntar. Todo mundo usa uma fachada, todo mundo finge alguma coisa, todo mundo cheira pó e diz gostar de açúcar. Ela andaria desengonçada com um anel brilhante no dedo, diria que era desengoçada porque vivia bêbada. Teria uma nova versão, a partir dali.
Andou na rua cantarolando "she's only 18, don't like the rolling stones..."
(isso é FICÇÃO)
Assinar:
Postagens (Atom)